HOMELESS
Como se tivéssemos distribuído
À farta
Mais que miséria:
Tudo prompt para
Aparecer na
Teletela
Meus olhos
Estalam
À luz tabletiana
Mostrar ou não mostrar?
Eis a questão
Saudade de mim
Enquanto bicho de pelos fundos
E segredo.

LEILÃO ONLINE
O dedo indicador rola o botão do mouse
Ad infinitum no modo zumbi
Olhos para não ver
Ouvidos para não ouvir
Amigos virtuais noticiam
O almoço, o câncer, o suicídio
Leiloam a genitália da alma
Enquanto o algoritmo pergunta
Quem dá mais
Alguém finge que gargalha
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
A onomatopeia impossível
Alguém finge que chora
🙁
O emotion dura um segundo
Vou construir uma casa de swing
Para digitais anestesiadas.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em BH/MG. Publicou oito livros, entre eles: Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Biblioteca do Paraná) e Estive no fim do mundo e me lembrei de você (Peirópolis, 2021). Este ano publica Atlas de anatomia (Caos e Letras), no prelo.
