2 poemas de ADRIANE GARCIA

HOMELESS

Como se tivéssemos distribuído
À farta
Mais que miséria:
Tudo prompt para
Aparecer na
Teletela

Meus olhos
Estalam
À luz tabletiana

Mostrar ou não mostrar?
Eis a questão

Saudade de mim
Enquanto bicho de pelos fundos
E segredo.

LEILÃO ONLINE

O dedo indicador rola o botão do mouse
Ad infinitum no modo zumbi
Olhos para não ver
Ouvidos para não ouvir

Amigos virtuais noticiam
O almoço, o câncer, o suicídio
Leiloam a genitália da alma
Enquanto o algoritmo pergunta
Quem dá mais

Alguém finge que gargalha
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
A onomatopeia impossível
Alguém finge que chora
🙁
O emotion dura um segundo

Vou construir uma casa de swing
Para digitais anestesiadas.

Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em BH/MG. Publicou oito livros, entre eles: Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, Biblioteca do Paraná) e Estive no fim do mundo e me lembrei de você (Peirópolis, 2021). Este ano publica Atlas de anatomia (Caos e Letras), no prelo.

2 poemas de NANDA LETURIONDO

agora sou feliz
mas tenho uma tristeza retroativa
aguardando qualquer hora
um abalo
um duelo
um milagre
que me convença
que ontem não é páreo para hoje

francês com italiano
índio com basco
meu pai leva Matusalém no nome
minha avó é Verzoni
na infância me chamavam de pretinha
o sobrenome de minha prima é Stefanosky
o pai do meu 3º avô era russo
o meu 3º avô era um gigante de olhos verdes e sobrenome Haag
é do Exu um avô do meu filho
o meu filho nasceu em Salvador da Bahia
é da Sicília a avó da minha mãe
a minha avó tinha sobrenome Souza
meu irmão chamam Bertol
eu, Leturiondo
na infância meu cabelo era preto
minha vó beliscava as bochechas para ganhar rosado
lá em casa todos ficavam vermelhos no verão
eu ficava da cor de meu avô
e ainda fico

Nanda Leturiondo é psicanalista, artista visual e poeta. Trabalha no atrito entre linguagens. Usa fios, palavras, máquina fotográfica e outras tintas. Rascunha em panos, lentes e lacunas, alinhavando sentidos e absurdos com a mesma linha que vai tecendo a trama de histórias vividas e imaginadas. É artista integrante do Mapa da Palavra – BA nas publicações digital e impressa, CartoGRAFIAS. É uma das autoras do Livro Cão, lançado em 2016 e do Água de muitas fontes, de 2021. Faz produções para o grupo de contadores de histórias Canastra Real e compõe o Uma Questão de Texto, grupo de escrita que realiza saraus poéticos-literários desde 2002 na cidade de Salvador, Bahia.

2 poemas de JOVINA SOUZA

O AMOR NO MUNDO

O amor é lâmina na letra,
palavra do verbo dilacerar
é limite e silêncio.
Nada há além da sua rasura
Que se abre perene e anômala
desenhando a sua semântica.
Sua lira é forjada nos versos
de uma esperança que não é suave
Nem lúcida.

ACONTECEU ASSIM

Ele me chegou misterioso.
Sem alarde, queria tudo.
Eu estava sempre em dívida.
Dei-lhe corpo e alma,
não bastava. Tudo era pouco.

Trazia listas de desejos novos
delirantes, todas as manhãs.
Nos intervalos dos seus gozos,
ofertava-me raios multicores
e o sonho de eternizar os instantes.

Sofri de taquicardia, de suor nas mãos
e de muita saudade.
Com o prazer dos anjos no corpo
e aquelas dúvidas que desesperam,
segui torta minha aventura lírica,
na angustia dos tantos pedidos,
Incertezas e sobressaltos.
Quando eu o chamava de amor,
ele não respondia, calava-se.

Jovina Souza é baiana, mestra em Teoria e Crítica da Literatura e da Cultura (UFBA) e Especialista em Estudos Literários (UFBA) e em Ensino da História Afro-Brasileira (Fac. Olga Mettig). Escreve poesias, contos e textos acadêmicos. É presença constante em Feiras literárias e outros eventos de literatura e antologias. Tem sete livros de poesia publicados, como O amor não está (2019) e O levante da fênix (2021) e sua obra é estudada em escolas e universidades.