2 poemas de Ângela Vilma

A DOÇURA DAS COISAS PERDIDAS

A doçura das coisas perdidas,
para sempre perdidas.
Como receber um buquê
de rosas mortas
somente pelo cheiro que continua,
cheiro forte, perfume que em nada atenua
a dor do que foi perdido.

A doçura das coisas perdidas.
Um anel, um marcador de páginas,
um livro, e minha letra de menina dentro dele.
Um amor que nunca aconteceu,
a dor de saber que nada é teu,
diante da vigília dos que não te amam;
vigília cheia de ternura exposta, e definitiva.

A doçura das coisas perdidas.
Um rio, uma pedra, um morto, a volta
de Lázaro, a ressurreição de Cristo:
perdemos a cena; e a Solidão, uma antena
se insinua, em silhueta,
no intuito, secreta, de nunca sabermos
por que tudo um dia perdemos.

.

.

NOITE, AINDA

O sorriso,
Só o pressinto
Do lado de cá.

No entanto,
É noite
E ele também está nela.

Como uma imagem tão clara,
Como, como não posso vê-la?

Entre mim e ele soam gestos
E toques sob a pele.

Mas, etérea, sua voz suspende
Minha vida para fora
Da dele.

Ambos, ambos no espaço
Sem nunca mais, nunca mais
A espera.

No entanto,
Ainda é noite
E ele também está nela.

Ângela Vilma é poeta, cronista e professora. Publicou Beira-Vida (1990), Poemas escritos na pedra (1994), Poemas para Antonio (2010), A solidão mais funda (2016) e Aeronauta (2020).