A POESIA DE ANA ESTAREGUI COM OS ÓCULOS DE CHANTAL MAILLARD

ESTHER BLANCO

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Ler os poemas do mais recente trabalho de Ana Estaregui, Fazer círculos com mãos de ave[1], reativou dentro de mim o eco de algumas das ideias lidas no ano passado em Decir los márgenes, de Chantal Maillard[2], livro no qual, em longa conversa com Muriel Chazalon, a poeta e filósofa hispano-belga revisita alguns temas essenciais de sua obra e reflete sobre o papel da arte — e da poesia — como forma de expressão de um mundo entendido como sistema e processo em constante movimento.

No capítulo intitulado “Ficciones”, dialogando sobre a natureza da realidade e suas representações e questionando os relatos que contamos a nós mesmos acerca do universo, da vida, do mundo e de nossa própria existência, Chantal Maillard comenta os trabalhos do cientista Gregory Bateson[3], que, nos anos 60 do século XX, contribuiu para uma mudança de paradigma epistemológico em sua observação do mundo vivente. Destaca especialmente sua capacidade de perceber o padrão que conecta os elementos de um sistema, ou seja, os princípios de organização subjacentes a todos os fenômenos e estratos da vida. Uma das ideias centrais de sua análise é que a estrutura da mente e a da natureza é reflexo uma da outra, que mente e natureza constituem necessariamente uma unidade.

Bateson[4], explica Maillard, compreendeu a realidade como uma rede complexa de relações e processos, estranhas e paradoxais interconexões entre diferentes planos, níveis e componentes, entre os quais, evidentemente, nós também estamos enredados. Por isso, para pensar a vida, preferia o esquema metafórico do silogismo: “A erva morre. Os homens morrem. Os homens são erva”. Uma vez que as conexões são a essência do mundo vivente, para descrevê-lo e compreendê-lo seria preferível uma linguagem das relações, isto é, a metáfora.

Baterson ia mais longe, qualificava como “estético” tudo aquilo que fosse “sensível ao padrão que conecta”. Em outras palavras — e com termos de Maillard — é atributo ou potência da arte, e em particular da poesia, estabelecer conexões entre os diferentes elementos do mundo vivente.

Mas atenção, o comportamento dos sistemas complexos não é a soma do comportamento dos elementos que os integram. Nesse sentido, Chantal Maillard descarta a antiga ideia monolítica do ser para proclamar a de um acontecer-com, levando em conta, por um lado, a mudança e, por outro, o fato de que o sujeito também está acontecendo-com. E o-que-acontece não são “fatos”, mas trajetórias, pois nada é estável nem pode ser isolado do restante. Ou seja, a existência inteira dos seres está atravessada por dois fatores: mudança e coexistência no sistema-universo. Movimento e interconexão.

«Assim, por exemplo, acontece um concerto como acontece um móvel, um inseto ou uma conversa por telefonia celular, sendo que, em cada um dos acontecimentos, nada permanece sendo aquilo que descrevem as palavras (concerto, inseto, móvel) ou as expressões com as quais, à moda antiga, detemos o processo para descrevê-lo. Um inseto não é um “inseto”, mas torna-se inseto, e isso acontece ao mesmo tempo que a raiz da “flor” absorve o “mineral” que a nutre, que a luz a converte naquilo que o “inseto” liba e que nos chega o “som” de suas “asas” e o sem-fim de processos transformativos que têm lugar a cada instante.»[5]

A partir dessa descrição sistêmica e mutável do universo, a metáfora é o mecanismo da linguagem capaz de dar voz à intuição sensível que apreende e faz ressoar esse acontecer-com que caracteriza a vida; o mecanismo da linguagem que consegue «simultanear os reinos […] interconectar obliquamente aquilo que pela via reta nunca teríamos relacionado»[6].

Baterson descreve a vida como predicado, relação, algo que passa através dos sujeitos; o que está entre os seres humanos, as plantas e os animais, e existiu sem sujeitos (sem a linguagem dos sujeitos) há milhões de anos e se multiplicou e avançou pelos caminhos que a metáfora indica: “os homens são erva”.

Todas essas ideias vêm-me como uma luva para explicar a peculiaridade do magnífico livro de poemas da brasileira Ana Estaregui, Fazer círculos com mãos de ave, trabalho delicado que olha e expressa a realidade da vida de maneira minuciosa, buscando na linguagem uma forma de representar a conexão profunda de todas as coisas. O que une com um fio invisível palavras e versos, o que dá sentido profundo ao olhar que articula os poemas é justamente a voz “sensível ao padrão que conecta” de que falava Bateson, uma voz que observa o mundo, a vida, a partir da perspectiva da interconexão de todos os elementos e que, com intuição delicada, capta o acontecer-com minúsculo, o fio ou energia invisível que conecta seres, instantes, movimentos, sentires, e o expressa com uma língua primorosa, que não apenas capta a simultaneidade dos reinos, mas a faz ressoar em seus versos.

Cada um dos poemas — e o próprio livro em sua totalidade — funciona como uma complexa metáfora dessa visão da vida como processo, que o título transmite claramente: usando a terminologia maillardiana, “o-que-acontece” não são “fatos”, mas trajetórias. O próprio título dá conta dessa forma de olhar: seu enunciado metafórico— fazer círculos com mãos de ave — nomeia o impulso que move a poeta, o fim estético último que sustenta e percorre todo o livro: expressar a vida em seu acontecer simultâneo, múltiplo e instável. E o faz no infinitivo, na forma substantiva e durativa do verbo, mostrando-o diante de nossos olhos no ato puro e pleno de mover-se. Trata-se de uma poesia que se defronta com o processo-universo, observa-o em seu pulsar — pássaros, folhas, árvores, insetos, a própria poeta — e que, nele e com ele, pretende ser trajetória.

Vejamos como exemplo o poema de onde procede o verso que nomeia o livro:

seus poemas
como gansos selvagens,
desprendem-se da margen
Gary Snyder

estamos a fazer círculos com as mãos
aprendemos a escrever tempo em gestos
enquanto erguemos os braços e movemos escápulas
notamos: há uma harmonia secreta
entre as conchas e a cordilheira
há um arco entre o vento e as garoupas
a casa os astros as estalactites
ao dançar produzimos formas de dizer
parentescos com as árvores
vínculos com os insetos

mover já não é útil, mas a justa repetição
de movimentos anteriores

tal como as baleias que fazem espirais em fibonacci
ou os elefantes que falam por trepidação

é como segurar entre os dedos pequeninas escamas brilhantes
e pressentir – é uma abelha é uma penugem
é uma palavra.

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No poema, o movimento, o gesto individual, já não é apenas movimento orientado a um fim, não é somente pessoal; amplia-se e cresce, é uma das tantas e infinitas manifestações da vida em seu acontecer — do movimento mais pequeno, como o de um inseto, ao gigantesco, como o das baleias; do movimento mais minúsculo no tempo à sua prolongação ao longo dos séculos, nas cordilheiras, estalactites.

Voltemos por um momento a Bateson para pensar esta poesia: não há uma lógica de sujeitos, mas de predicados, de relações, de ação, duração, movimento. Não é o sujeito ou o objeto o que se contempla nesses poemas, mas a ação, o predicado, o movimento, o existir, ou, em palavras de Chantal Maillard, «o fugidio processo de estar sendo».

Vista assim a vida, a partir dessa consciência, na poesia de Ana Estaregui a palavra é o gesto, cheio de ecos, de ressonâncias, que tenta anotar a dança contínua do universo — agora e sempre — em um movimento repetido que perdura e se prolonga no tempo. Fiquemos, para acabar, com a curva, o movimento deste fazer círculos com mãos de ave, como se fosse uma linha que se desenha no verso, no título, uma pirueta que ali flutua e ecoa, pura trajetória, igual à dança de uma abelha ou a de uma pena que arrasta o vento.

Esther Blanco é espanhola, filóloga hispânica e mestra pela Universidade de Barcelona. Professora de língua espanhola e literatura na Espanha e no Brasil, hoje é coordenadora acadêmica do Instituto Cervantes Salvador. Em 2016, publicou Arena de los días/Areia dos dias. Este ano publicou Levar consigo um oceano/Llevar consigo un océano. Poeta selecionada no Mapa da Palavra da Funceb, tem poemas publicados em diversas revistas na Espanha e no Brasil e participou de recitais dentro e fora do país.

[1] Estaregui, Ana, 2025, Fazer círculos com mãos de ave, Editora 34, São Paulo.

[2] Maillard, Chantal, 2024, Decir los márgenes. Conversaciones con Muriel Chazalon, Barcelona, Galaxia Gutenberg.

[3] Baterson, Gregory, 1997, Espíritu y naturaleza, Amorrortu Editores.

[4] Bateson, Gregory, 1980, “Todos los hombres son hierba”, conferencia grabada y transcrita disponible en https://vertov14.wordpress.com/wp-content/uploads/2010/08/los-hombres-son-hierba-bateson.pdf.

[5] MaillarD, Chantal, Decir los márgenes, 2023, p. 237.

[6] MaillarD, Chantal, Decir los márgenes, 2023, p. 237.

2 poemas de ESTHER BLANCO

subir para o alto
desde as tripas
pela voz
que suba a água do poço
que o ar corra
até o grito
o canto

dizer-se
ser palavra a borbotões
sair de dentro
sendo impulso orgânico
magma jorro
pura voz de si

dizer-se água folha vento grama
pedra contra os vidros
dizer-se onda
que explode em espuma
sobre a areia
dizer-se musgo
que se dobra e brilha
sobre a pedra
dizer-se alga
na água
da onda
que a leva
contra a terra
dizer-se
naturalmente
sendo
sem pensar no que tu és

viver deveria ser fácil
como o grito

subir hacia lo alto
desde las tripas
por la voz
que suba el agua del pozo
que el aire corra
hasta el grito
el canto

decirse
ser palabra a borbotones
salir de dentro
siendo impulso orgánico
magma chorro
pura voz de sí
decirse agua hoja viento hierba
piedra contra los vidrios
decirse ola
que revienta en espuma
sobre la arena
decirse musgo
que se dobla y brilla
sobre la piedra
decirse alga
en el agua
de la ola
que la lleva
contra la tierra
decirse
naturalmente
siendo
sin pensar en la que eres

vivir debería ser fácil
como el grito

AS CARPAS

havia uma bola de vidro azul e transparente
lascada como um fóssil de pedra
pesada e velha – bela
como eu quando era uma flor amarela –
guardava-a como uma rêmora
um pedaço de outra mulher que fui

como já nada disso importa
a joguei no rio no último dia do ano
um rio azul que passa sob uma ponte
entre álamos secos
que ascendem água acima
três carpas cinzas
como sombras

LAS CARPAS

tenía una bola de vidrio azul y transparente
descascarillada como un fósil de piedra
pesada y vieja – bella
como yo cuando era una flor amarilla –
la guardaba como una rémora
un pedazo de otra mujer que fui

como ya nada de eso importa
la lancé al río la última mañana del año
un río azul que pasa debajo de un puente
entre álamos secos
que remontan agua arriba
tres carpas grises
como sombras


Esther Blanco é espanhola, filóloga hispânica e mestra pela Universidade de Barcelona. Professora de língua espanhola e literatura na Espanha e no Brasil, hoje é coordenadora acadêmica do Instituto Cervantes Salvador. Em 2016, publicou Arena de los días/Areia dos dias. Este ano publicou Levar consigo um oceano/Llevar consigo un océano. Poeta selecionada no Mapa da Palavra da Funceb, tem poemas publicados em diversas revistas na Espanha e no Brasil e participou de recitais dentro e fora do país.