O DRAGÃO
Encantou-se com El Drac ao visitar a Catalunha
lagarto dragão salamandra iguana
diziam as letras mudas ao lado da fotografia
condenadas à morte por inanição
luz cacos cores mosaico insidioso
criando ondas no dorso
tão rápido a instalar em mim o camaleão
o dragão da minha infância era preto
dócil enrodilhado debaixo da mesa da cozinha
à espera de migalhas
à espera de um grito
mudo acovardado servil sem tesouros a guardar
como se aquele castelo não exigisse defesa
ou já estivessem soltas as rédeas do destino
dragão era apelido fácil
nomeava os desafetos da minha avó
vá ao armazém e pergunte ao dragão
farinha arroz feijão seco tintura e fios pra tecer
dragão – a voz grave ecoava
senhor dragão – um fiozinho de voz
entre as tranças de alho atrás dos surrões
os dois sem fogo pelas ventas
sem lua nem espadas de São Jorge atiçando a ira
aprendi a observar os camaleões

REENCONTRO
(pelas mãos de Gaudí)
Havia um sol de mosaico
no círculo de fogo dos teus olhos
a mirar os meus passos
como se eu fosse presa fácil
para línguas gosmentas e alongadas
havia a ousadia do vento
sem cacos rabiscos ou desenhos
a soprar do Leste dizia a biruta
como se eu fosse um barco à vela
ao alcance do impulso das partidas
havia a lentidão dos teus gestos
lagarteando a vida sob o sol
a cruzar a vastidão do meu caminho
como se entre nós uma nova linguagem
traduzisse a grafia misteriosa do universo

