agora sou feliz
mas tenho uma tristeza retroativa
aguardando qualquer hora
um abalo
um duelo
um milagre
que me convença
que ontem não é páreo para hoje

francês com italiano
índio com basco
meu pai leva Matusalém no nome
minha avó é Verzoni
na infância me chamavam de pretinha
o sobrenome de minha prima é Stefanosky
o pai do meu 3º avô era russo
o meu 3º avô era um gigante de olhos verdes e sobrenome Haag
é do Exu um avô do meu filho
o meu filho nasceu em Salvador da Bahia
é da Sicília a avó da minha mãe
a minha avó tinha sobrenome Souza
meu irmão chamam Bertol
eu, Leturiondo
na infância meu cabelo era preto
minha vó beliscava as bochechas para ganhar rosado
lá em casa todos ficavam vermelhos no verão
eu ficava da cor de meu avô
e ainda fico

Nanda Leturiondo é psicanalista, artista visual e poeta. Trabalha no atrito entre linguagens. Usa fios, palavras, máquina fotográfica e outras tintas. Rascunha em panos, lentes e lacunas, alinhavando sentidos e absurdos com a mesma linha que vai tecendo a trama de histórias vividas e imaginadas. É artista integrante do Mapa da Palavra – BA nas publicações digital e impressa, CartoGRAFIAS. É uma das autoras do Livro Cão, lançado em 2016 e do Água de muitas fontes, de 2021. Faz produções para o grupo de contadores de histórias Canastra Real e compõe o Uma Questão de Texto, grupo de escrita que realiza saraus poéticos-literários desde 2002 na cidade de Salvador, Bahia.
